Caderno escolar é lançado para prevenir acidentes com escalpalmento

O governo do Estado acaba de lançar o Caderno Pedagógico – Espaço Acolher, livro que a princípio será utilizado para as aulas em nível de Educação Básica que são ministradas pela equipe da Classe Hospitalar do Espaço Acolher, casa de acolhimento criada pela Santa Casa de Misericórdia, em Belém, que hospeda e trata pacientes vítimas de escalpelamento, oriundas de municípios distantes e que necessitam passar por longo período de internação e tratamento.

Lançado na 22ª Feira Pan-Amazônica do Livro e impresso pela Imprensa Oficial do Estado (IOE) para compor também o currículo educacional nas escolas ribeirinhas do Pará, o caderno é produto de uma articulação entre a Secretaria de Estado de Educação (Seduc), Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa), Fundação Santa Casa de Misericórdia do Pará (FSCMP) e Comissão Estadual de Enfrentamento dos Acidentes com Escalpelamento (CEEAE).

Na ocasião do lançamento do caderno no estande da Seduc na Feira do Livro, a coordenadora da Classe Hospitalar, Fernanda Costa, explica que a publicação vem somar como instrumento pedagógico aos educadores a título de compartilhar o estilo das informações preventivas disseminadas pela Comissão Estadual de Enfrentamento aos Acidentes de Motor com Escalpelamentos, “pois utiliza o enredo de uma personagem ribeirinha, Madi, que tem como principal meio de transporte os barcos e canoas com motor, típicos da região amazônica e, é nesse contexto que a rotina da menina é narrada com todas suas peculiaridades geográficas e culturais”, informa.

No prefácio do caderno, a assistente social Socorro Silva, coordenadora da Comissão pela Sespa, assinala que “trabalhar a prevenção, garantir a assistência e cuidados e oferecer a continuidade dos estudos das pessoas acidentadas em tratamento é uma responsabilidade assumida pelo Estado”. Segundo ela, o caderno é uma forma também de mobilizar a sociedade no enfrentamento aos acidentes com eixo de motor de embarcações nos rios da Amazônia, que provocam o escalpelamento.

No final do caderno, que foi elaborado e organizado pelas professoras do Espaço Acolher, Denise Correa Soares Mota, Gilda Maria Martins Saldanha e Micheline Banhos de Oliveira, há ainda propostas de atividades a serem desenvolvidas em sala de aula. A primeira tiragem foi de 500 exemplares e dedicada às alunas da Classe Hospitalar do Espaço Acolher, que inspiraram as professoras a inovar na prática pedagógica.

Considerações sobre o acidente

Mulheres e crianças são as maiores vítimas e geralmente ficam graves sequelas físicas e psicológicas. Grande parte das vítimas é oriunda de 42 municípios localizados entre o Arquipélago do Marajó e o oeste paraense.  O balanço dessas ocorrências mostra a eficácia do trabalho que vem sendo feito: de 1982 até dezembro de 2014 foram registrados 409 casos de escalpelamento, contra 11 em 2015, seis em 2016 e um caso registrado em Portel, em 2017.

A maior parte dessas vítimas é de ribeirinhos, que têm no barco seu principal meio de transporte. No campo preventivo, a Sespa vem se empenhando em combater o escalpelamento, sobretudo a partir de 2008, quando foi criada a Comissão Estadual de Erradicação dos Acidentes com Escalpelamento, que já promoveu, entre outras atividades, a ação de cobertura de carenagens, feita pelos militares da Capitania dos Portos, responsável pelas ações de segurança naval nos rios do Pará, das quais destaca-se a colocação de proteção no eixo do motor, procedimento feito em parceria com a Sespa e que desde 2009, por meio de lei federal, tornou-se obrigatório. Desde então, mais de três mil embarcações receberam proteção nos eixos. A instalação não tem custo para o dono da embarcação, porque é patrocinada por empresas privadas.

Tanto na capital como no interior as informações preventivas são reforçadas em campanhas realizadas às vésperas de datas especiais, como carnaval, férias escolares de julho, Círio de Nazaré (em outubro) e Natal. “As orientações são para hábitos que podem salvar vidas, como fazer um ‘pitozinho’ no cabelo, usando de uma linguagem que o povo compreenda de imediato”, explica Socorro Silva, coordenadora de Mobilização Social da Sespa.

Na oportunidade, também são divulgadas informações sobre o atendimento às vítimas, que hoje é oferecido pelo Programa de Atenção Integral às Vítimas de Escalpelamento (Paives), realizado na Santa Casa, em Belém, e sobre o acesso ao Tratamento Fora de Domicílio (TFD), um benefício fornecido pelos municípios aos pacientes que precisam cuidar das sequelas fora da cidade de origem.

A redução dos casos de escalpelamento resulta de um trabalho integrado feito pela Comissão Estadual de Enfrentamento aos Acidentes com Escalpelamento (CEEAE), composta pela Marinha do Brasil, Fundação Santa Casa de Misericórdia, Defensoria Pública do Estado, Secretaria de Estado de Transportes (Setran), Capitania dos Portos, Ministério Público do Estado, Sindicato dos Médicos do Estado, Sociedade Paraense de Pediatria e Secretaria de Estado de Educação (Seduc), entre outras entidades parceiras.

Atualmente, a Fundação Santa Casa de Misericórdia do Pará coordena o processo de implante de orelhas em vítimas desse tipo de acidente, que entre 2006 e 2017 somaram 129 casos atendidos. As vítimas de escalpelamento também recebem um apoio fundamental no Espaço Acolher, mantido pela Fundação Santa Casa, que desde 2003 hospeda vítimas desse tipo de acidente oriundas de municípios do interior, que precisam dar continuidade ao tratamento médico em Belém. (Com informações de Ettiene Angelim).