Estado mantém atendimento integral às vítimas de escalpelamento

Kátia Batista, um das pacientes atendidas pelo Espaço Acolher

A família estava trocando de endereço e fazendo a mudança aos poucos, a barco, em Lábrea, no sul do Amazonas. Era 1982 e Kátia Batista, então com apenas nove anos, sofreu um acidente com escalpelamento porque a embarcação não tinha proteção no eixo do motor. Após anos de sofrimento causado por procedimentos e cirurgias mal sucedidas – tanto em Manaus como em Porto Velho, em Rondônia, onde vive atualmente -, soube pela internet, que o governo do Pará mantinha uma rede de atendimento e tratamento de excelência a pacientes como ela.

Luzia Matos, coordenadora do Espaço Acolher

Uma amiga custeou a passagem para Belém e Kátia bateu na porta do Espaço Acolher, local mantido pela Fundação Santa de Misericórdia do Pará que abriga vítimas de escalpelamento vindas de municípios distantes e que necessitam passar por acompanhamento durante a continuidade do tratamento. Após ser recebida pelas profissionais do abrigo, recebeu atendimento na Santa Casa e desde então tem sido acompanhada pela equipe multiprofissional do hospital, onde, segundo ela, foi realmente ouvida, assistida e tratada com dignidade.

Hoje, Kátia deita a cabeça no travesseiro, literalmente, quando dorme. “Até eu receber esse tratamento tão bom no Pará, passei esses últimos 37 anos da minha vida dormindo com a cabeça pra fora da cama e à base de analgésicos”, relatou a amazonense, que assegurou seus direitos pela gestão de Porto Velho a fim de custear o Tratamento Fora de Domicílio (TFD) a fim de garantir suas vindas a Belém. A segunda e mais recente delas aconteceu em junho, quando foi submetida na Santa Casa a um procedimento com expansor, que reduz cicatrizes nos locais afetados. A previsão é que essa fase do tratamento termine em setembro.

“Mas não desejo que outras crianças e mulheres passem por essa dor. Isso é responsabilidade de todo mundo, das famílias, dos donos de barco, das autoridades. Esse tipo de desastre nem deveria estar mais acontecendo”, relata Kátia. Assim como ela, Naelane Moraes sofreu escalpelamento parcial também aos 9 anos, quando voltava de viagem de férias de volta a Anajás, onde nasceu. Portadora de glaucoma congênito, atribui em parte à baixa visão o fato de ter sofrido o acidente. “A melhor prevenção é orientar a prender e cobrir os cabelos. Hoje passo isso às minhas filhas e pra quem eu conheço, pois minha rotina não é fácil, apesar de ser bem assistida aqui”, relata.

Naelane mora atualmente em São Sebastião da Boa Vista, no arquipélago do Marajó, e precisa ficar no Espaço Acolher enquanto vem a consultas na Santa Casa, para procedimentos no crânio, e no hospital universitário Bettina Ferro, devido ao glaucoma.

Sâmia Borges, diretora de Política de Atenção Integral à Saúde (Dpais)

Histórias como as delas estão entre as dezenas registradas pelo Espaço Acolher, conforme relembra a assistente social Luzia Matos, coordenadora do abrigo que assiste, em média, 30 pacientes, entre mulheres e crianças. “São depoimentos que precisam rarear, se o consciente coletivo atuar, de fato, pelas medidas que podem evitar mais casos de acidentes com escalpelamento no Pará”, explica.

Só este ano, sete acidentes com escalpelamento já foram registrados no Pará, sendo dois deles em Porto de Moz e um nos municípios Breves, Melgaço, Santa Izabel, Anajás e São Sebastião da Boa Vista, todos com intensa movimentação de embarcações.

“É fundamental o fortalecimento da rede de prevenção, envolvendo o poder público das áreas de saúde, educação e assistência, a sociedade civil organizada, como associações de moradores e igrejas, agentes comunitários de saúde e sociedade civil”, explica a coordenadora estadual de Saúde Indígena e Povos Tradicionais, Tatiany Peralta.

A coordenadora estadual de Saúde Indígena e Povos Tradicionais, Tatiany Peralta

De 1982 até junho deste ano foram registrados 434 casos de escalpelamento. “O trabalho em parceria com a Marinha do Brasil é essencial e tem contado com nosso apoio para cobrir o eixo da maioria dos barcos nos rios da Amazônia”, enfatiza Sâmia Borges, chefe da Diretoria de Políticas de Atenção Integral à Saúde (Dpais) da Sespa.

“Muitas das vítimas sobrevivem resgatando a autoestima abalada pelas sequelas do acidente e atuamos com todo carinho possível porque a recuperação é longa e é preciso muita paciência para lidar com o fato que muitas precisam abandonar a vida na própria cidade para residir temporariamente em Belém”, afirma a psicóloga Jureuda Guerra, do Espaço Acolher, da Santa Casa de Misericórdia.

A luta pela redução dos casos de escalpelamento resulta de um trabalho integrado feito pela Comissão Estadual de Enfrentamento aos Acidentes com Escalpelamento (CEEAE), composta pela Sespa, Marinha do Brasil, Fundação Santa Casa de Misericórdia, Defensoria Pública do Estado, Secretaria de Estado de Transportes (Setran), Capitania dos Portos, Ministério Público do Estado, Sindicato dos Médicos do Estado, Sociedade Paraense de Pediatria e Secretaria de Estado de Educação (Seduc), entre outras entidades parceiras.

Serviço: Para informar sobre vítimas de escalpelamento ligue para a Diretoria de Políticas de Atenção Integral à Saúde (Dpais) da Sespa: (91) 3223-8170 ou para a Fundação Santa Casa: (91) 4009-2262.

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