Prevenção da morte materna por hemorragia começa no pré-natal

Laíses Braga ministra oficina “Morte Materna por Hemorragia

A prevenção da morte materna por hemorragia durante o parto começa no pré-natal com a identificação dos principais fatores de risco apresentados pela gestante. O alerta é da médica obstetra Laíses Braga, instrutora da Organização Pan-Americana para a Estratégia Zero Morte Materna por Hemorragia e coordenadora do Serviço de Obstetrícia da Fundação Hospital de Clínicas Gaspar Vianna.

Ela foi uma das palestrantes do evento “Zero Morte Materna por Hemorragia – Prevenção e Manejo Obstétrico de Hemorragia”, realizado pela Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa), por meio da Diretoria de Políticas de Atenção Integral à Saúde (Dpais), no dia 12 de setembro, no auditório da Escola de Governo. Esse foi o segundo treinamento de 2019, o primeiro aconteceu em abril.

Itamara Santana da Silva, coordenadora estadual de Saúde da Mulher

De acordo com a coordenadora estadual de Saúde da Mulher, Itamara Santana da Silva, o objetivo do evento foi treinar cerca de 80 médicos e enfermeiros para essa estratégia, que importante para a redução da mortalidade materna no Pará. “Participaram representantes dos Centros Regionais de Saúde e profissionais de todos os municípios paraenses”, informou Itamara.

Segundo Laíses, no pré-natal, já é possível corrigir a anemia, identificar precocemente se a paciente tem história de hemorragia (coagulopatia). “Podemos perguntar, por exemplo, quando você extrai um dente, sangra muito? Quando você se corta demora a parar de sangrar?”, disse a obstetra.

Também é importante saber se a gestante já teve hemorragia nos partos anteriores, se tem ou teve pressão alta na gravidez, se há história de hemorragias na família, o que pode indicar que ela tem um fator hereditário  para esse problema.

Laíses Braga, médica obstetra e instrutora da Opas para a Estratégia Zero Morte Materna por Hemorragia

Fatores de risco – Laíses explicou que a hipertensão arterial e cesáreas anteriores também são fatores de risco para hemorragia. “A cesárea é um fator predisponente para a placenta acreta, que é aquela que gruda no útero e não consegue sair depois do parto e também para placenta prévia, que em vez de ficar localizada no fundo do útero ou na parte anterior ou posterior, fica bem em cima da cicatriz uterina, fazendo com que a placenta cresça para cima do colo uterino. Placenta prévia fica entre a cabecinha do bebê e o colo. Então a criança não pode sair ou, ao se iniciar o trabalho de parto, a placenta começa a se descolar com a abertura do colo levando a um sangramento”, detalhou a especialista. “Tem que saber se a paciente tem cicatriz cirúrgica anterior, seja de cesárea, retirada de mioma ou outro tipo de cirurgia, porque isso vai predispor à hemorragia, tanto pelo acretismo quanto placenta prévia”, alertou a médica.

Conforme Laíses, ao detectar esses fatores de risco na paciente, o profissional, deve já direcioná-la para um hospital que atenda à gravidez de alto risco. “Não adianta mandar para maternidade de pequeno porte porque ela poderá evoluir com hemorragia e terá que ser transferida para uma maternidade de maior complexidade. Se eu desconfio ou identifico numa ultrassonografia que a grávida tem placenta prévia ou acreta eu já tenho que programar a cesárea dessa mulher. Deve ser evitado que inicie o trabalho de parto porque é uma mulher que tem indicação absoluta para  cesárea devido ao alto risco de hemorragia”, enfatizou a especialista.

Cerca de 80 profissionais de saúde participam do treinamento no auditório da EGPA

Parto e pós-parto – No que tange à hora do parto, ela disse que assim que chegar na maternidade, a equipe médica precisa fazer as mesmas avaliações feitas durante o pré-natal e já solicitar hemograma para todas as mulheres na admissão na maternidade, pois a anemia é fator de risco para a hemorragia pós-parto.

Durante o trabalho de parto, é importante acompanhar com cuidado usando o partograma, avaliando as contrações uterinas, porque a ruptura uterina pode levar à hemorragia e à morte da mãe e do bebê. É preciso observar a pressão arterial, para evitar e tratar precocemente qualquer pico hipertensivo, que pode ocorrer durante o trabalho de parto, denominado de hipertensão transitória.

Depois do parto, a coisa mais importante é uso da Ocitocina como profilaxia para a hemorragia, que deve ser feita imediatamente após o nascimento do bebê, antes de tirar a placenta. Essa substância irá ajudar o útero a contrair de forma eficaz, auxiliando na prevenção da hemorragia

Um alerta importante feito pela médica é que o profissional não deve puxar a placenta. “Deixa que ela vai sair sozinha, porque ao tracionar a placenta pode deixar restos dela dentro do útero, causando agonia uterina ou a inversão do útero, levando à hemorragia. Tudo no parto tem que ser o mais fisiológico e tranquilo possível, sem forçar a natureza. Hoje em dia, com as atuais técnicas que levam em consideração a fisiologia da mulher e o seu estado físico e emocional, há uma grande probabilidade de não haver complicações e de as coisas acontecerem naturalmente”, orientou a instrutora da Opas.

Sobre o treinamento, Laíses disse que estava capacitando os profissionais para o enfrentamento d dificuldade no primeiro momento. “Seja um enfermeiro, seja um médico, se perceber qualquer alteração de sangramento após a saída da placenta, deverá iniciar imediatamente o protocolo para o tratamento da hemorragia pós-parto. Se o fluxograma for seguido em todas as mulheres, não haverá complicação, pois quando ele é executado corretamente, dá tempo de transferir a puérpura para uma unidade de alta complexidade, evitar o choque hemorrágico e o óbito”, afirmou a obstetra.

Médica ensina como utilizar o traje especial para conter hemorragia no parto

Nova tecnologia – Os participantes também tiveram a oportunidade de conhecer e aprender a utilizar o traje antichoque não pneumático (TAN), que é uma nova tecnologia de tratamento da hemorragia obstétrica que vem sendo introduzida no Brasil pelo Ministério da Saúde em cooperação com a Opas/OMS. O TAN permite um controle transitório do sangramento, ampliando a sobrevida das mulheres enquanto aguarda um procedimento ou a transferência a uma unidade de referência.

Laíses disse que o TAN é uma tecnologia leve, de baixo custo que controla a hemorragia até a paciente chegar numa unidade de alta complexidade em que o caso pode ser resolvido. “Ele funciona como se fosse     uma contenção da hemorragia evitando que piore o estado geral da mulher até chegar num hospital de alta complexidade, para cirurgia ou outro procedimento para salvar essa vida. Depois que eu consigo controlar, fazer o diagnóstico e tratar, aí eu posso tirar o TAN”, explicou a médica.

Texto: Roberta Vilanova

Fotos: José Pantoja

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