População ribeirinha é vacinada contra a raiva humana em Portel

A Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa) iniciou, nesta terça-feira (10), a vacinação contra a raiva humana da população ribeirinha que vive ao longo do rio Pacajá, no município de Portel. A vacinação faz parte do Projeto para Detecção e Titulação de Anticorpos Neutralizantes (AcN) do Vírus da Raiva para Acompanhamento de Imunidade em População sob Risco para Raiva após Ação de Vacinação, que tem o objetivo de realizar um estudo científico e prevenir novos casos de raiva humana na população que tem dificuldade de acesso aos serviços de saúde pública.

O trabalho se estenderá até o dia 29 de setembro e está sendo realizado pelo Departamento de Doenças Transmitidas por Vetores (DCDTV) por meio do GT Zoonoses, 8º Centro Regional de Saúde da Sespa, Secretarias Municipais de Saúde de Portel e de Melgaço, com apoio do Ministério da Saúde, da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) e do Instituto Pasteur.

A equipe que atua na ação é formada pelos técnicos Alberto Begot, Fernando Esteves e Simony Guimarães, Cláudio Figueiredo, Benedita Campos e Jéssica Santos do GT Zoonoses da Sespa; pelos técnicos Felipe Rocha, Ottorino Cosivi, Julio Pompei e Mariana Tozzi do Centro Pan-Americano de Febre Aftosa da Organização Pan-Americana de Saúde/Organização Mundial da Saúde  (Panaftosa/OPAS/OMS), e pelo técnico Alexander Vargas do Ministério da Saúde. Também fazem parte da equipe seis pilotos de lancha e 12 técnicos de enfermagem dos municípios de Melgaço, Breves e Portel, que vão realizar a coleta de sangue do grupo controle e a vacinação da população escolhida.

Felipe Rocha e Alberto Begot desembarcam em Portel

Atualmente, o Ministério da Saúde indica a profilaxia antirrábica em duas situações: na pós-exposição (PEP), ou seja, depois da agressão pelo animal e pré-exposição (PrEP), antes da agressão. Porém, a PrEP é recomendada somente para uma lista de classes profissionais com risco de exposição frequente ao vírus rábico. Entretanto, novas diretrizes da Organização Mundial de Saúde (OMS) e estudos recomendam a profilaxia PrEP também para pessoas residentes em áreas endêmicas para raiva, em especial, àqueles grupos que tenham dificuldade de acesso à profilaxia PEP de forma oportuna e adequada, como é o caso da população ribeirinha.

Considerando que já foram realizados diversos estudos científicos apontando o protocolo PrEP como eficaz na prevenção de raiva humana em populações residentes em áreas de risco, o objetivo científico do Projeto-Piloto é avaliar o método de profilaxia, que será empregado em ação de vacinação de população ribeirinha residente de área de risco para raiva transmitida por morcegos hematófagos, por meio do acompanhamento dos títulos de anticorpos neutralizantes de indivíduos vacinados.

População ribeirinha está mais exposta às agressões por morcegos

Surtos – É importante lembrar que nos anos de 2004 e 2005, surtos expressivos de raiva humana transmitida por morcegos hematófagos foram descritos no Pará e Maranhão. E em 2018, um novo surto foi documentado com registro de dez casos, dos quais nove deles eram menores de 18 anos, todos residentes de área ribeirinha do município de Melgaço, no Pará, com histórico de espoliação por morcegos hematófagos e sem realização de profilaxia antirrábica pós-exposição. A maioria das vítimas era residente de área rural, ribeirinhas e remotas.

Segundo a coordenadora do GT Zoonoses, Elke de Abreu, nesta ação piloto, será a primeira vez que se utilizará essa metodologia específica no Brasil, de duas doses ID, para vacinação de população humana contra a raiva como método de controle da enfermidade, ou seja, como uma nova ação de saúde.

Conforme a gestora, o projeto de vacinação no Pará é fundamental porque a raiva gera elevados custos com protocolos de prevenção pós-exposição e os custos com o tratamento de baixa eficácia são ainda maiores. “Além disso, a raiva é uma enfermidade cujos sintomas impressionam aqueles que têm contato com as vítimas, gerando traumas e danos psicológicos nas famílias e nos agentes de saúde que atendem a esses pacientes”, acrescentou Elke.

Acompanhamento – De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), para que um indivíduo seja considerado imunizado, seus títulos de anticorpos neutralizantes para o vírus da raiva devem ser igual ou maior que 0.5 UI/mL.

Coleta de sangue para aferir os níveis de titulação de anticorpos neutralizantes para o vírus da raiva

Acompanhamento – De acordo com a OMS, para que um indivíduo seja considerado imunizado, seus títulos de anticorpos neutralizantes para o vírus da raiva devem ser igual ou maior que 0.5 UI/mL.Com base nessa informação, o acompanhamento da população vacinada será feita por meio das seguintes ações: aferir os níveis de titulação de anticorpos neutralizantes para o vírus da raiva antes da administração da vacina antirrábica humana (inativada) com o intuito de verificar se a população foi exposta anteriormente e se há indivíduos com títulos obtidos naturalmente por essa exposição; verificar a duração e o nível de anticorpos para o vírus da raiva na população de estudo pós-ação de vacinação por um período de dois anos, com uso do esquema de vacinação de duas doses; verificar como os diferentes grupos populacionais reagem imunologicamente à vacinação e se haverá diferença nas respostas imunológicas; e verificar diferenças de resposta imunológica entre indivíduos que receberam duas doses da vacina em comparação a indivíduos que receberam uma dose.

As amostras serão coletadas de voluntários que concordem em participar do projeto, após assinatura do termo de consentimento. No caso de menores, o termo de consentimento será assinado pelos pais ou responsáveis.

Texto: Roberta Vilanova

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