Janeiro Roxo combate preconceito contra as pessoas com hanseníase

Enfermeira técnica da Coordenção Estadual de Controle de Hanseníase, Jovina Malcher, enfatiza que existem tratamento e cura para a hanseníase

A Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa) realiza desta quarta-feira (20) até 4 de fevereiro, a programação alusiva ao Janeiro Roxo, com o objetivo de combater o estigma, a discriminação, o preconceito e a exclusão social contra as pessoas acometidas pela hanseníase.

A campanha, que traz como tema “Hanseníase: Conhecer para Não Discriminar”, também tem a finalidade de informar a população sobre os sinais e sintomas, diagnóstico e tratamento da doença que tem cura.

A programação começou na manhã desta quarta-feira com uma videoconferência destinada aos profissionais de Saúde de todo o Estado, com apoio do Conselho de Secretários Municipais de Saúde (Cosems), que disponibilizará o link para todos os municípios paraenses.

Com o tema “Hanseníase”, o evento abordou manifestações clínicas, diagnóstico diferencial, diagnóstico clínico, prevenção de incapacidades e controle dos comunicantes, tendo como palestrantes a dermatologista Andressa Bocalon e a fisioterapeuta Terezinha Araújo (URE Dr. Marcello Cândia), e a dermatologista Carla Pires (Uepa).

Nos dias 30 e 31 de janeiro, haverá uma palestra educativa com o tema “Enfrentamento do Estima e Preconceito” na programação do TerPaz nos bairros do Guamá e Jurunas, respectivamente. No dia 4 de fevereiro, será realizada uma videoconferência voltada para os agentes comunitários de Saúde, com o tema “Hanseníase: conhecer para não discriminar – Estratégia de enfrentamento do Estigma e Preconceito”.

Segundo a enfermeira e técnica da Coordenação Estadual de Controle da Hanseníase, Jovina Malcher, o principal foco da campanha é levar informação e conhecimento sobre a doença, falando claramente que nem toda pessoa que adoece de hanseníase vai desenvolver dano físico, que é o que mais provoca o preconceito e estigma contra os pacientes, levando ao isolamento.

“Vamos enfatizar que existe tratamento e cura, que basta a pessoa procurar a unidade básica de saúde logo que surgirem os primeiros sinais ou sintomas da hanseníase para confirmar o diagnóstico precocemente e evitar danos físicos. Essa também é uma forma de evitar o preconceito, que traz um dano pessoal, social e emocional muito grande”, afirmou Jovina Malcher.

Médico dermatologista e hansenologista, Carlos Cruz explica que como a Covid-19, a hanseníase é transmitida pela fala, tosse ou espirro

Endemia – Embora seja uma doença de registro milenar, a hanseníase ainda é considerada um problema de saúde pública e é endêmica no Pará. Conforme dados da Sespa, foram registrados 2.512 casos novos em 2019 e 1.535 casos até o momento em 2020, pois os dados ainda são parciais e só serão fechados após 31 de março deste ano, quando o Ministério da Saúde encerra o ano epidemiológico.

O médico dermatologista e hansenologista da Unidade de Referência Especializada Marcello Cândia, Carlos Cruz, acredita que haverá uma redução de casos da doença entre 2019 e 2020 em função da pandemia, pois que as pessoas deixaram de comparecer às Unidades de Saúde com medo de ser contaminadas pelo novo coronavírus.

Outra informação importante dada pelo médico é que atualmente, apenas 10% dos casos novos estão sendo identificados a partir de exames dos contatos de pessoas doentes. “Os casos novos deveriam ser identificados proporcionalmente mais no seio familiar, infelizmente não tem sido assim. Mais de 80% dos casos têm sido identificados por demanda espontânea ou encaminhamento às unidades de saúde. Isso significa que as pessoas estão adoecendo muito mais fora do ambiente familiar, em contatos sociais, escola, ambiente de trabalho etc”, alertou Carlos Cruz.

Carlos Cruz também acredita que em dois a cinco anos poderá haver mudança nesse cenário com uma redução de casos de hanseníase motivada pelo uso da máscara nesses ambientes durante a pandemia porque o período de incubação da doença é de cinco anos.

“E assim como a Covid-19, tuberculose e outras doenças a hanseníase é transmitida pelas vias aéreas superiores, que eliminam o bacilo de Hansen pela fala, tosse ou espirro, contaminando quem está próximo. A vantagem é que 90% da população já tem imunidade natural e mesmo exposta a esse foco de infecção não adoecem e o uso da máscara também reduz esse risco”, explicou o especialista.

Sinais e sintomas – A hanseníase é uma doença infectocontagiosa e os principais sinais e sintomas são presença de manchas com alteração de sensibilidade. “Qualquer mancha dormente é hanseníase, não há outra doença que cause mancha com dormência”, disse o médico.

“Também pode haver machas semelhantes a impinge, que não dão coceira e não melhoram com uso de medicamentos de uso tópico, e ainda manifestações neurológicas como sensação de ferroadas, choque, formigamento e perda de sensibilidade de mãos e pés são muito presentes na hanseníase”, detalhou o dermatologista e hansenologista Carlos Cruz.

O diagnóstico é essencialmente clínico, mas pode ter suporte de um exame chamado de bacilosocopia, que é a busca de bacilos em locais específicos da pele, como em lesões nas orelhas e cotovelos, só que 75% desse exame têm resultado negativo o que não significa que a pessoa não tem a doença. “Por isso, o diagnóstico tem que ser clínico”, acrescentou o dermatologista.

Quando a hanseníase não é diagnosticada precocemente, ela pode levar a incapacidades físicas daí a importância de procurar ajuda médica logo ao primeiro sinal da doença. Segundo Carlos Cruz, cerca de 6% dos pacientes já apresentam incapacidades no momento do diagnóstico, o que reflete um diagnóstico tardio e é preocupante.

Ele ressaltou que o primeiro atendimento tem que ser na unidade básica de saúde, que é a porta de entrada do SUS, ficando a URE Marcelo Cândia, em Marituba, destinada ao atendimento de casos que apresentem complicações.

Tratamento – Quanto ao tratamento, o especialista Carlos Cruz informou que varia de seis meses a um ano e às vezes pode ser prorrogado até dois anos. No caso das formas que não são transmissíveis, as chamadas paucibacilares o tratamento é de seis meses com dois medicamentos (um comprimido diário de Dapsona e um comprido mensal do antibiótico Rifanpicina).

“Tomou seis meses recebeu alta por cura”, afirmou o doutor Cruz. Já as formas multibacilares, que transmitem a doença, requerem um tratamento normalmente de 12 doses. “Mas existem situações excepcionais em que o paciente, ao final de 12 doses, ainda não está curado precisa fazer mais 12, assim poderá ir até dois anos”, explicou Carlos Cruz.

É importante informar, por fim, que os medicamentos usados no SUS vêm da Fundação Novartis por meio de doação à Organização Mundial de Saúde (OMS), que, por sua vez, doa a todos os países onde a hanseníase ainda é uma doença endêmica. Portanto, o Pará aguarda o repasse do Ministério da Saúde para o atendimento de pacientes no primeiro trimestre de 2021.

Texto: Roberta Vilanova/Sespa

Fotos: José Pantoja/Sespa

 

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