Manipulação adequada de alimentos evita a doença de Chagas

O açaí precisa passar por várias etapas de higienização antes de ser vendido ao consumidor (Foto: José Pantoja/Sespa)

Para a prevenção da transmissão da doença de Chagas por alimentos é fundamental o envolvimento da população paraense, pois, como consumidora é uma importante aliada na fiscalização da adequada manipulação de alimentos, em especial, nos pontos de venda de açaí, podendo, ainda, informar as autoridades sanitárias sobre possíveis casos da doença, o que ajuda no controle da endemia no estado.  O alerta é da Vigilância Sanitária Estadual (Visa) da Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa).

Nutricionista Dorilea Pantoja capacita batedores de açaí no município do Acará

A nutricionista da Visa, Dorilea Pantoja, disse que o objetivo principal da Visa é fazer cumprir o que estabelece o Decreto Estadual N° 326/2012, que é o marco regulatório das ações de Vigilância Sanitária junto aos batedores artesanais de açaí, estabelecendo a obrigatoriedade da realização de uma série de etapas de processamento do fruto. “Então, atuamos principalmente, na capacitação de batedores artesanais de açaí, das equipes Vigilância Sanitária dos municípios e dos Centros Regionais de Saúde sobre as Boas Práticas de Manipulação do Açaí”, informou.

Sujidade retirada com o peneiramento do açaí (Foto: José Pantoja/Sespa)

“As etapas são peneiramento, que é o momento em que o fruto é passado por uma peneira para retirada da sujidade que o acompanha, inclusive insetos como o barbeiro transmissor da doença de Chagas; lavagens, dividida em três etapas: a primeira, feita somente com água potável esfregando-se o fruto para retirada de resíduos aderidos a eles; a segunda lavagem, que é a imersão do fruto em uma solução de água sanitária e água potável, na proporção de 7,5 ml para um litro, por 15 minutos; e a terceira lavagem, que é o enxágue dos frutos, que tem como objetivo a remoção do resíduo de cloro”, detalhou a nutricionista.

Palestra sobre o Programa Estadual de Qualidade do Açaí e Noções sobre Doença de Chagas no Acará

Segundo Doriléa Pantoja, depois disso tudo, é feito o branqueamento, etapa fundamental para a redução do risco da doença de Chagas, momento em que o batedor mergulha os frutos em água aquecida a 80°C (não pode ferver) por 10 segundos e depois mergulha em água fria. “Após essa etapa o fruto é despolpado e envasado, devendo ser mantido refrigerado e sua comercialização deverá se dar no prazo máximo de 24h após processado”, enfatizou.

O último treinamento aconteceu, de 12 a 16 de outubro, no município do Acará, tendo sido capacitados 75 batedores de açaí e 57 agentes comunitários de saúde.

Alta na produção de açaí ocorre de junho a novembro (foto José Pantoja Sespa)

Risco de contaminação – O farmacêutico da Visa, Ednei Amador, lembra que o período menos chuvoso e mais seco, conhecido como “verão amazônico”, que começa em junho e se estende até novembro, coincide com o aumento da produção e a redução do preço do açaí, um alimento de grande importância no contexto econômico, social e cultural, e de elevado valor nutricional.

No entanto, ele alerta que esse também é o período em que há maior registro de casos e surtos de doença de Chagas aguda no Pará, que, de acordo com dados do Ministério da Saúde, foi responsável por 80% dos casos confirmados no Brasil nos últimos 12 anos.  “É importante alertar que 85% dos casos registrados têm como provável via de infecção a oral, geralmente associada ao consumo de açaí contaminado com Trypanosoma cruzi, devido à presença de barbeiro ou de suas fezes contaminados. Daí a importância da capacitação dos batedores de açaí conduzida pela Visa Estadual”, disse Ednei Amador.

Palestra sobre Doença de Chagas no treinamento no Acará

Número de casos – Segundo dados da Coordenação Estadual de Doença de Chagas, entre janeiro e agosto de 2020, foram confirmados 103 casos, contra 130 registrados em 2019, representando uma queda de 20,77%.

No entanto, essa redução pode estar associada à subnotificação dos casos pelos municípios em função da pandemia de Covid-19, pois alguns sintomas da doença são semelhantes aos da doença de Chagas, principalmente na fase aguda. “Isso se torna um problema, porque quando não tratado e acompanhado adequadamente, o paciente, ao evoluir para a fase crônica, tem maiores chances de desenvolver problemas do coração ou do intestino”, alertou Ednei Amador.

Batedores de açaí aprendendo a técnica de higienização das mãos

Já em setembro, foram registrados nove casos de doença de Chagas, sendo 06 em Muaná, 03 em Belém e 03 em São Sebastião da Boa Vista, provavelmente associados à ingestão de açaí contaminado devido à manipulação inadequada.

A Coordenação Estadual de Doença de Chagas está monitorando esses casos junto aos municípios e aos Centros Regionais de Saúde para investigar a suspeita de novas notificações e encaminhar os pacientes com diagnóstico confirmado ao centro de referência para tratamento e acompanhamento, que é o Hospital Universitário João de Barros Barreto (HUJBB).

Saiba mais – A doença de Chagas é uma doença infecciosa, causada por um parasita, o Trypanosoma cruzi. A doença apresenta duas fases: uma aguda e uma crônica. Na fase aguda os sintomas mais comuns são febre persistente, geralmente por mais de sete dias, sensação de fraqueza, inchaço das pernas e/ou do rosto, palpitações. Também pode ocorrer vômito, dor de barriga e diarreia. Após a fase aguda, o paciente entra na fase crônica, e se não tratado adequadamente, pode evoluir para a forma em que há comprometimento do coração ou do intestino, ou de ambos.

Momento de degustação de açaí na capacitação no Acará

Contágio – A transmissão da doença de Chagas pode ocorrer de diferentes formas: a vetorial, que ocorre quando o barbeiro, ao se alimentar, defeca e a pessoa picada coça levando o Trypanosoma cruzi presente nas fezes para a corrente sanguínea; a vertical, quando ocorre transmissão da doença da mãe para o bebê durante a gravidez; a transfusional; a acidental, que ocorre quando o Trypanosoma cruzi entra na corrente sanguínea por meio de ferimentos da pele ou da mucosa do olho ou da boca devido a acidentes com respingos de sangue, com material como agulhas contendo sangue infectado ou causados durante o preparo da carne de animais de caça contaminados com o parasito.

Mas a transmissão oral é a principal forma de transmissão da doença de Chagas no estado do Pará, que ocorre pelo consumo de quaisquer alimentos não manipulados adequadamente e contaminados pelo Trypanosoma cruzi.

Tratamento – Nem todos os pacientes apresentam sintomas, mas todos os diagnosticados com a doença devem ser tratados para evitar complicações cardiológicas ou gastrintestinais. Esses pacientes devem ser acompanhados durante cinco anos. O acompanhamento é realizado pelo HUJBB e pelo serviço de Atenção Primária à Saúde, realizando exames conforme o protocolo estabelecido pelo Ministério da Saúde. Pacientes que apresentam complicações devem ser acompanhados por médicos especialistas.

Serviço: Para dúvidas ou mais informações, entrar em contato com o Departamento de Estadual de Vigilância Sanitária pelo telefone (91) 4006-4883 ou com o Departamento de Controle de Endemias pelo telefone (91) 4006-4823.

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