Governo do Pará incentiva Empreendedorismo Inclusivo durante o período do Círio de Nazaré
15/10/2026Mães e cuidadoras de crianças atípicas aproveitam a festa de Nazaré para garantir renda extra com a venda de artigos religiosos, lembrancinhas e objetos de artesanato.
O período do Círio de Nazaré se transformou em uma oportunidade de trabalho e renda para mães, pais e cuidadores de pessoas com transtorno do espectro autista no Pará. Incentivados pelo programa de empreendedorismo inclusivo desenvolvido pela Secretaria de Saúde do Estado (SESPA) através da Coordenação Estadual de Políticas para o Autismo (CEPA), os empreendedores assistidos pelo governo do Pará participam de diversas exposições na capital paraense para exibir peças que combinam talento e devoção mariana.
“O período do Círio é o nosso segundo natal, então meus artigos religiosos, agregados com técnicas de colagem de pedrarias, agradam ao público que vem de fora, os turistas, e também os paraenses que querem presentear, dar uma lembrancinha do Círio para os parentes. É uma época boa de vendas, e de fé e emoção inexplicável”, disse a artesã Jane Mendonça, que tem uma filha adolescente com 13 anos de idade, diagnosticada com autismo nível 2 de suporte

Jane Mendonça. Foto: Arquivo Pessoal
“O artesanato surgiu para mim como uma forma de terapia. Eu comecei a fazer terços, chaveiros e medalhões para presentear a família e fui me aperfeiçoando, vendo técnicas que eu conseguia fazer”, destaca a empreendedora, que hoje participa da Feira de Artesanato do Círio (FAC), que acontece até o dia 14 de outubro no Parque Urbano Porto Futuro. “É uma experiência maravilhosa trabalhar como expositora. Aqui na FAC é a minha primeira vez, e sinto que estar aqui é um sonho realizado”, destaca.
Empreendedorismo inclusivo
A CEPA atende mais de 250 famílias de empreendedores que têm diagnóstico de TEA ou são cuidadores de pessoas com autismo. Para a coordenação, fomentar este tipo de atividade é uma forma de abrir as portas do mercado para pessoas que, muitas vezes, não conseguem trabalhar de outra forma.
“Nós sabemos que a rotina de pessoas neurotípicas, pais, mães e avós de pessoas TEA é repleta de demandas, já que o trabalho do cuidador é uma atividade de tempo integral, e muitas vezes para o resto da vida. Ao dialogar com a comunidade identificamos que esta demanda dificultava, ou até impossibilitava, que o cuidador tivesse uma atividade profissional formal. É por isso que a CEPA incentiva o empreendedorismo, para assegurar que essas pessoas possam ter uma atividade que consigam conciliar com as suas obrigações em casa, permitindo novas oportunidades de trabalho e renda para quem acaba sendo excluído do mercado”, explica Nathália Galdino, coordenadora da CEPA.
É o caso de Jane, que largou o emprego e passou a se dedicar aos cuidados da filha. “Eu trabalhava em um supermercado há quase 10 anos, e o motivo principal de ter saído foi ela, porque ela não tem autonomia para os cuidados do dia-a-dia. Tem coisas simples que ela não consegue fazer, e ela só quer que a mãe faça. Por isso deixei de trabalhar”, conta.
“Nossa rotina é muito puxada, com idas ao médico e terapias. O artesanato no momento é um complemento de renda, porque somos cinco e só o meu marido trabalha. Eu já estou no mercado como artesã há dois anos, e se Deus quiser isso vai ser a minha fonte de renda um dia”, revela a artesã.
Oportunidade de negócios e realização pessoal
Jaqueline Silqueira é a mãe e principal cuidadora de Thamires, uma criança TEA de suporte 2. “Sabemos que a caminhada de uma mãe atípica não é nada fácil. Cada família tem suas particularidades, seus desafios e sua própria realidade. Em alguns momentos, chegamos a passar mais tempo nas terapias do que em nossa própria casa. São muitos compromissos, cuidados, aprendizados e desafios diários. Mas todo esse esforço e dedicação se tornam gratificantes quando vemos a evolução de nossos filhos. Cada pequena conquista da Thamires representa uma grande vitória para mim. É isso que nos dá força para continuar, sempre buscando oferecer a ela o melhor e acompanhando cada etapa do seu desenvolvimento”, conta a artesã, que também se voltou ao empreendedorismo por conta da rotina incompatível com o mercado tradicional.

Jaqueline. Foto: Arquivo Pessoal
“Para nós, mães atípicas, é muito difícil conciliar um emprego formal com as necessidades dos nossos filhos. Temos compromissos constantes com terapias, consultas e acompanhamento diário. Muitas vezes, somos nós mesmas as principais cuidadoras e também participamos ativamente do processo terapêutico, junto à equipe multidisciplinar. Por isso, acredito que muitas empresas ainda têm dificuldade em compreender essa realidade e acabam não oferecendo oportunidades ou condições adequadas para que mães cuidadoras possam conciliar o trabalho com as necessidades dos seus filhos”, pondera Jaqueline.
Hoje a produção de cosméticos faciais, hidratantes, perfumes e outros produtos artesanais é a principal fonte de renda da empreendedora que, durante o período das festas de Nazaré, está participando da feira Vitrine do Círio, que reúne artesãos no Terminal Hidroviário de Belém, e também de um evento em uma clínica particular da capital paraense. “O período do Círio costuma ser muito bom para ganhar dinheiro com arte, porque aumenta o movimento na cidade e muitas pessoas procuram peças que representem a cultura e a identidade paraense. As vendas ficam mais aquecidas, especialmente de produtos artesanais e lembranças. Minha expectativa é que este ano seja ainda melhor, com mais oportunidades de mostrar meu trabalho, conquistar novos clientes e fortalecer minha renda”, afirma a artesã.
“O artesanato e o empreendedorismo são uma importante fonte de renda para nossa família. Além de ser uma forma de sustento, esse trabalho também nos permite ter mais flexibilidade para acompanhar nossos filhos e conciliar as responsabilidades da maternidade com a vida profissional. Trabalhar na feira tem sido uma experiência muito gratificante. Além de realizar meu trabalho e fazer o que amo, hoje consigo ter mais tempo para mim e, principalmente, para minha filha e minha família”, revela a artesã, que também destaca a realização profissional de poder ver uma coisa feita com suas próprias mãos atrair a atenção dos clientes.
“Nós amamos o que fazemos. Para nós, cada produto não é apenas um produto, mas representa dedicação, criatividade e um sonho. Em cada peça que produzimos, colocamos um pouco da nossa história, do nosso carinho e do desejo de transformar nosso trabalho em algo especial”, conclui Jaqueline.
Texto: Ingo Muller



