Central Estadual de Transplantes sensibiliza a sociedade para doação de órgãos no Pará

Central Estadual de Transplantes sensibiliza a sociedade para doação de órgãos no Pará

13/04/2026 Off Por Roberta Vilanova

Expressar que é doador de órgãos e ter a sua vontade respeitada pela família. Isso é o que basta para aumentar o número de pacientes beneficiados com a doação de órgãos. Não há necessidade de registro em nenhum documento oficial. A informação é da Central Estadual de Transplantes (CET), vinculada à Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa), que desenvolve diuturnamente um trabalho árduo para ampliar o número de doações e a quantidade de transplantes realizados no Pará.

 

De acordo com a médica e assessora técnica da CET, Ana Beltrão, sensibilizar a família a autorizar a doação de órgãos ainda é um grande desafio, porque ela ainda tem muita dificuldade de entender esse processo, principalmente quando a pessoa que faleceu não expressou em vida que gostaria de ser doador de órgãos.

“É importante que haja a manifestação em vida, pois quando a família já sabe que aquela pessoa gostaria de ser doadora, o processo se torna mais fácil, mesmo que ainda não concorde muito com a decisão do ente querido”, diz a médica.

Foto: Divulgação

Os dados são desafiadores no Pará. De 2000 a 2025, houve 735 negativas de familiares à doação de órgãos. Por outro lado, a CET registrou 459 manifestações de familiares a favor da doação de órgãos; resultando na doação de 19 corações, 217 de fígado; 873 de rim e 91 doações de válvula cardíaca. Além disso, do total de doações, 221 foram múltiplas, ou seja, um doador originou a doação de mais de um órgão.

Trabalho da OPO – Para que mais famílias decidam a favor da doação de órgãos e mais pacientes sejam beneficiados com transplantes é que trabalha a Organização de Procura de Órgãos (OPO).

A OPO é uma equipe multidisciplinar essencial para a captação de órgãos e tecidos, atuando como elo entre hospitais, a Central de Transplantes e as famílias. Ela é composta por médicos e enfermeiros que identificam potenciais doadores, avaliam os órgãos, lidam com as questões documentais e logísticas, acolhem as famílias, e realizam a entrevista para solicitar a autorização, o que é indispensável para que ocorra, de fato, a captação de órgãos e tecidos no Brasil.

Atualmente, o Pará conta com duas OPOs, a OPO Tapajós, em Santarém, a primeira a ser implantada no território estadual; e a OPO Metropolitana I, que funciona na CET, em Belém, e é composta por cinco enfermeiros e dois médicos.

A gerente de Doação de Órgãos e Tecidos da CET, Ana Gabriela Sabaa, explica que a OPO Metropolitana I tem uma atuação mais ampla por conta da ausência de outras Organizações. “Mas já estão pactuadas no nosso plano estadual a abertura de mais duas OPOs, provavelmente a OPO Carajás, em Marabá; e a OPO Caetés, em Capanema”, informou.

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Conhecendo o processo – A OPO é acionada por telefone e oficialmente por e-mail pela Equipe Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos (e-DOT), que atua em hospitais para identificar potenciais doadores, realizar buscas ativas, acolher e sensibilizar famílias sobre a doação de órgãos e tecidos. Essas equipes são estratégicas para o Sistema Nacional de Transplantes (SNT), com normas focadas em aumentar o número de doações autorizadas e notificar óbitos.

O comunicado traz a notificação, as informações do potencial doador e os documentos sinalizando que estão iniciando o protocolo de morte encefálica. Pois é o diagnóstico de morte encefálica que marca o início do processo de doação. “Só falamos de doação de órgãos com a família e com a equipe, depois que o diagnóstico é concluído e se o paciente está validado para doar. A validação é necessária porque pacientes com câncer ou com doenças infectocontagiosas, por exemplo, não podem ser doadores de órgão”, explicou a gerente da CET, Ana Gabriela Sabaa.

Acolhimento – O acolhimento da família de potenciais doadores pode ser feito tanto pela OPO quanto pela e-DOT. A gerente Ana Gabriela Sabaa enfatiza que quando a equipe percebe que trata-se de um paciente vítima de traumatismo cranioencefálico (TCE), acidente vascular cerebral (AVC), doença neurológica grave, lesão irreversível etc., mesmo que ele ainda esteja reativo a determinados estímulos neurais, a e-DOT já faz o acolhimento, para estabelecer vínculo de confiança.

O acolhimento também abrange a questão do diagnóstico de morte encefálica, que precisa ser bem definido conforme as normas vigentes no Brasil. “Existe uma legislação e não tem como fugir dela em nenhuma das etapas. Por isso as equipes conversam com a família desde o início até a conclusão do diagnóstico, que é confirmado por exame de Doppler transcraniano, mostrando realmente que não há atividade de fluxo sanguíneo cerebral”, detalhou Ana Gabriela Sabaa.

Ela contou, ainda, que muitas famílias, no primeiro momento, dizem não à doação por conta de crenças, religiosidade e questões culturais “Há entrevistas que chegam a durar até quatro horas, porque precisamos esperar o processo do luto, da negação, principalmente quando a família não está preparada para receber a notícia. Só depois, entramos com a pergunta sobre a doação de órgãos, então é bem desafiador”, disse a gerente da CET.

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Capacitação – A OPO Metropolitana também atua junto aos profissionais de saúde oferecendo Educação Continuada, com seminários, oficinas, hands-on, momentos de prática profissional, simulação de entrevista e até sobre diagnóstico de morte encefálica. “Porque para que um médico participe do protocolo de diagnóstico de morte encefálica, ele precisa fazer o curso e estar capacitado para isso”, alertou Ana Gabriela Sabaa.

O último Curso de Determinação de Morte Encefálica (CDME), inclusive, destinado a médicos, foi realizado em 19 de março, no Hospital Regional Dr. Abelardo Santos, no distrito de Icoaraci, em Belém.

Desafios – De acordo com Ana Gabriela Sabaa, os desafios são mais complexos em hospitais que não têm e-DOTs. “Às vezes, temos que fazer orientação por telefone, vencer essas barreiras geográficas para conseguir a doação. É um grande desafio alcançar os municípios mais distantes da capital, temos perdido doações por conta disso. Daí a importância e necessidade da implantação das novas OPOs em Marabá e Capanema neste ano e ir expandindo esse trabalho para todo o estado, já que sem doação não há transplante”, alertou.

Apesar dos desafios e dificuldades, para Ana Gabriela Sabaa, participar do trabalho de doação de órgãos é algo indescritível e nunca vai ser um mérito de uma pessoa só. “Quando acontece uma doação, quando há cirurgia de captação e principalmente quando o transplante é realizado e bem sucedido, tem-se aí um trabalho de muitas mãos”, declarou.

No seu ponto de vista, sensibilizar a família é a parte mais difícil, porque ela está num momento de dor extrema e a equipe precisa trazê-la para a realidade de outras pessoas. “É muito desafiador mostrar que há muitas pessoas aguardando por um órgão. Conseguir o aceite dessa família é algo indescritível. Muito triste pela perda, pelo momento, mas, ao mesmo tempo, feliz porque sabemos que a fila vai andar”, disse Ana Gabriela Sabaa.

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Corrida contra o tempo para realizar o transplante

A partir do momento que a família aceita doar os órgãos, começa uma intensa mobilização de profissionais e instituições para que os órgãos doados cheguem a quem precisa. “Costumamos acionar o Grupamento Aéreo de Segurança Pública (Graesp) e a Força Aérea Brasileira (FAB), para buscar o órgão em outro município e até em outro Estado. Todo o processo é articulado pelo Sistema Nacional de Transplante junto com as equipes OPO e e-DOT”.

A OPO da CET é uma OPO cirúrgica, ou seja, além de todo o trabalho de acolhimento, entra em campo para fazer a captação dos órgãos e volta para a Central de Transplantes para providenciar o envio dos órgãos. “Muitas vezes não sabemos para onde vai o órgão, a não ser quando é transplante de fígado, porque o paciente já está internado na Santa Casa aguardando. Mas é incrível poder impactar vidas dessa forma”, comemora Ana Gabriela Sabaa, ressaltando que a equipe da OPO Metropolitana é muito unida e tem conseguido melhorar as taxas de aceite das famílias.

Concluindo, Ana Gabriela Sabaa, disse que é necessário falar mais sobre esse assunto com a sociedade para que fique sensível à causa. “A doação dos órgãos de um ente querido é aquele momento em que a pessoa faz o bem sem olhar a quem e serve como um alento para família do doador, que será lembrado como pessoa que pôde ajudar outras pessoas da forma como fazia em vida”.

Para a enfermeira, a população precisa ser esclarecida porque ainda existem muitos estigmas e mitos, como achar que a pessoa não poderá ser velada ou que ficará deformada. “Nada disso é verdade, temos muito cuidado com o corpo, respeito e ética do início ao fim do procedimento. Então, quanto mais a gente falar, mais conscientizar, mais doadores teremos e menos pacientes estarão aguardando na fila de espera por um órgão”, afirmou.

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Dados – Em 2024, o Pará realizou 634 transplantes, sendo 516 de córnea, 54 de rim (falecido), 08 de rim (intervivo), 12 de fígado, 28 de medula óssea, 10 de tecido osteomuscular, e 06 de esclera. Já em 2025, foram 464 transplantes, sendo 340 de córnea, 59 de rim (falecido), 05 de rim (intervivo), 16 de fígado, 37 de medula óssea, 05 de tecido osteomuscular, e 02 de esclera.

Segundo a gerente administrativa da CET, Perla Corrêa, uma das principais ações deste ano de 2026 da Central foi a apresentação e a aprovação do Plano Estadual de Doação e Transplante de Órgãos 2026/2029, o primeiro da história no Pará, na reunião da Comissão Intergestores Bipartite (CIB), realizada no último dia 9 de abril, no Hangar Feira e Convenções da Amazônia, em Belém.

“O plano é o documento norteador, para que consigamos ampliar e fortalecer essa rede não só aqui na Região Metropolitana, mas nos municípios das demais regiões, que também têm um grande potencial para fazer a captação e, quem sabe, futuramente, até transplante de órgãos, assim como Santarém já faz”, afirmou Perla Corrêa.