Rede estruturada e diagnóstico precoce elevam chances de cura do câncer infantil

Rede estruturada e diagnóstico precoce elevam chances de cura do câncer infantil

14/02/2026 Off Por ASCOM

Estado reforça a importância da identificação correta dos sintomas e do acesso ágil ao tratamento especializado, garantindo que 100% dos pacientes sejam atendidos dentro da Lei dos 60 dias no Hospital Octávio Lobo

Foto: Ascom / HOIOL

O Dia Internacional de Luta Contra o Câncer Infantil, celebrado neste domingo (15), alerta sobre o diagnóstico precoce e o acesso ao tratamento de alta complexidade, fatores determinantes para elevar as taxas de cura e sobrevida dos pacientes. No Pará, a Rede e o Plano Estadual de Oncologia constituídos pela Secretaria de Estado de Saúde (Sespa) têm como eixo central a qualificação da linha de cuidado, com foco na ampliação do acesso, na melhoria da resolutividade dos serviços e na redução da morbimortalidade.

O câncer infantil é caracterizado pela proliferação descontrolada de células anormais em crianças e adolescentes, de 0 a 19 anos, acometendo, principalmente, os glóbulos brancos, o sistema nervoso central e o sistema linfático. Em Belém, no Hospital Oncológico Infantil Octávio Lobo (Hoiol) é a principal referência da região amazônica. A unidade é gerenciada pelo Instituto Diretrizes (ID), sob o contrato de gestão com a Sespa, tem cerca de 1.000 pacientes em atendimento. Hoje 100% dos usuários iniciam o tratamento dentro da Lei 12.732/12, que determina o prazo de 60 dias para o início do tratamento.

A dona de casa Elenice Fagundes, 35 anos, é mãe do Enzo Lemos, 8 anos. Ela contou que o menino apresentou palidez e vômito, sintomas que a levaram a buscar atendimento. Aos 4 anos, ele foi diagnosticado com leucemia.

“Viemos de Joinville após um transplante e retornamos para Belém, ele estava fora de tratamento e fazia só o tratamento de monitoramento no Hoiol, mas um certo dia o testísculo dele inchou. Passou por exames de imagem, e o médico constatou que o câncer retornou no testículo. Depois de mais de um mês, já estávamos aqui, fazendo todos os exames, foi tudo muito rápido”, disse.

Considerados raros, os tumores que acometem esses indivíduos são mais agressivos, porém o diagnóstico correto em tempo hábil eleva a taxa de sucesso em até 80%. O cenário evidencia o efeito direto da organização da rede assistencial na vida futura dos pacientes.

Apresentam sintomas comuns a outras enfermidades da idade, a exemplo das doenças endêmicas frequentes na região amazônica, como a malária, esquistossomose e a leishmaniose visceral, que causam febre prolongada, palidez e aumento do fígado e do baço. Essas manifestações também estão presentes em quadros de leucemias e outras neoplasias malignas.

A responsável técnica pela oncologia pediátrica do Hospital Oncológico Infantil, Karoline Silva, ressalta que “a semelhança entre os sintomas podem retardar a suspeita de câncer, caso não haja um olhar atento, portanto, é um dos maiores desafios clínicos da oncologia pediátrica”.

“As doenças infecciosas endêmicas apresentam sintomas mais agudos e respondem a tratamentos convencionais. Já no câncer, os sinais persistem e progridem, a febre continua por mais de sete a dez dias, sem causa definida, palidez que não melhora com suplementação de ferro e presença de manchas roxas sem histórico de trauma”, esclareceu.

Em casos de sintomas persistentes e progressivos, o pediatra deve fazer a solicitação imediata de um hemograma, conforme alerta a especialista. “Alterações em mais de uma linhagem sanguínea, como anemia associada à contagem de plaquetas baixa ou leucócitos alterados, exigem investigação oncológica prioritária. O tempo é determinante para o prognóstico, ou seja, sobre a evolução e o desfecho da doença”, destacou a especialista.

Números – Um levantamento da Coordenação Estadual de Atenção Oncológica (CEAO) apontou que, em 2025, os tipos de câncer mais frequentes no Pará foram as leucemias (222), neoplasias malignas de outras partes e de partes não especificadas da língua (28), neoplasias malignas de ossos e cartilagens articulares dos membros (28), neoplasia maligna do encéfalo (19) e Linfoma de Hodgkin (15).

As projeções oficiais do Instituto Nacional do Câncer (Inca) – órgão auxiliar do Ministério da Saúde – com base nos dados do Registro de Câncer e de Base Populacional, apontaram a ocorrência de 7.560 casos novos de câncer infantojuvenil no Brasil para cada ano do triênio de 2026 a 2028. O risco estimado é de 136, 33 casos por milhão de crianças e adolescentes brasileiros. Para o estado do Pará, são estimados 240 casos para cada ano do mesmo período.

Rede assistencial assegura acesso rápido ao tratamento integral no SUS

A estruturação e operacionalização do fluxo assistencial é conduzido pela Coordenação Estadual de Atenção Oncológica (CEAO), por meio de uma rede regionalizada, que encaminha os casos suspeitos para serviços especializados e consolida uma linha de cuidado integral a crianças e adolescentes de 0 a 19 anos no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), em conformidade com a Política Nacional de Atenção à Oncologia Pediátrica, instituída pela Lei nº 14.308/2022.

Nesse contexto, o Protocolo de Acesso à Rede de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia, aprovado pela Resolução CIB nº 128/2019, estabeleceu diretrizes para o acesso regulado via SISREG e Sistema Estadual de Regulação (SER).

“A regulação organiza o encaminhamento para consultas especializadas, exames diagnósticos e internações clínicas e cirúrgicas, para garantir diagnóstico precoce e início oportuno do tratamento, com a finalidade de diminuir a morbimortalidade por câncer e promover maiores índices de cura e sobrevida”, informou a coordenadora Estadual de Oncologia, Patrícia Martins.

A atenção primária, por meio da Estratégia da Família (ESF), é a principal porta de entrada para a suspeição dos sinais e encaminhamento para a triagem no Centro de Atenção à Saúde da Mulher e da Criança – Casmuc, da Universidade Federal do Pará. E, caso a hipótese seja elevada, os pacientes são encaminhados para uma das Unidades de Alta Complexidade em Oncologia (Unacon’s): o Hospital Oncológico Infantil Octávio Lobo (Belém), o Hospital Regional do Baixo Amazonas Dr. Waldemar Penna (Santarém).

O Hospital Oncológico Infantil atende, exclusivamente, crianças de adolescentes, de 0 a 19 anos, incompletos, das Macrorregiões I, II e IV, com 115 municípios. Mensalmente, a Unacon realiza mais de 35 mil atendimentos especializados e está com fila zero para consultas, cirurgias e tratamento de quimioterapia. Enquanto, em Santarém, o Hospital Regional do Baixo Amazonas, além do atendimento dos casos mais prevalentes em adultos, oferece atendimento especializado em oncologia pediátrica, atendendo a macrorregião III, composta pelas Regiões de Saúde do Baixo Amazonas, Tapajós e Xingu, com 29 municípios.

“Com a atual organização da assistência oncológica, os pacientes infantojuvenis já não necessitam ir ao Prontos-Socorros municipais para receberem o diagnóstico, agora realizado no Hoiol. Essa estratégia reduz o tempo de espera e, consequentemente, as sequelas causadas pelo câncer, tal como garante um diagnóstico rápido e correto, seguido de uma terapia eficaz e baseada em evidências, com cuidados de suporte personalizados”, destacou Patrícia.

Texto: Leila Cruz / Hoiol